Crise na AMB: diretores renunciam coletivamente
05 de junho de 2013
Numa crise sem precedentes nos 60 anos de história da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), pela primeira vez, boa parte de sua diretoria anunciou, na tarde desta terça-feira (4), renúncia coletiva de seus cargos e funções por discordar dos rumos assumidos pela atual gestão, presidida por Nelson Calandra. Liderados pelo vice-presidente administrativo da Associação, Marcos Daros, e pelo secretário-geral Nelson Missias de Morais, 22 magistrados formalizaram, nesta tarde, o inconformismo e a entrega de seus cargos.
“Há algum tempo, o inconformismo dos signatários deste documento quanto aos rumos administrativos e políticos dessa prestigiada entidade tem sido manifestado, sem, contudo, encontrar o eco necessário. Assim, renunciam, coletivamente, dos cargos e funções que ocupam, de forma irrevogável e irretratável”, acentua o documento entregue ao presidente da AMB, refletindo, segundo os signatários, o sentimento da maioria da magistratura brasileira que confiou e elegeu a atual direção.
De acordo com Nelson Missias, agora, ex-secretário-geral, a frustração com o desvirtuamento da missão da AMB é o principal causador da crise que atinge a maior entidade da magistratura brasileira. “Faltou vontade política para a defesa do projeto original, com repercussão negativa para a administração da entidade. Na verdade, com a atual gestão, a entidade perdeu o rumo e a identidade. Vamos buscar um novo caminho em defesa de uma magistratura altiva, independente e respeitada pela sociedade”, afirmou o magistrado, antecipando a criação de um movimento pela valorização da classe junto à sociedade e aos três poderes.
O vice-presidente Marcos Daros, também admitiu a sua decepção. “Há uma frustração com a condução daquilo que seria um grande projeto político. Sequer tentaram implementar o projeto. Não passou de uma piada”, criticou Daros, referindo-se à falta de comando na entidade e à excessiva interferência de pessoas de fora da magistratura. Outra vice-presidente (de Interiorização), Maria Luíza Sant’ana, integra a lista de renúncia. “Deixaram de atender ‘as reivindicações dos magistrados. A AMB perdeu a identidade com o magistrado, especialmente com os juízes e juízas do interior brasileiro”.
Um dos primeiros a renunciar foi o diretor-tesoureiro da AMB, Átila Naves. “Renunciei ao cargo em outubro do ano passado por discordar dos rumos da política financeira da entidade”, disse ele, que prenunciou o atual desfecho. Um mês depois, em novembro, seguiu caminho semelhante o diretor da Secretaria de Direitos e Prerrogativas e atual presidente da Associação dos Magistrados do Rio de Janeiro (Amaerj), Cláudio Dell’Orto. “Saí por conta das dificuldades na implementação de medidas em defesa dos direitos e das prerrogativas dos magistrados”, apontou Dell’Orto.
O diretor da Secretaria de Direitos Humanos, Gil Guerra, defendeu o revigoramento da entidade com propostas e ações que reflitam os anseios da classe. “Infelizmente, a atual gestão abandonou o projeto e não atendeu as nossas expectativas”.
O vice-presidente da Escola Nacional da Magistratura (ENM), Marcelo Piragibe, reclamou da falta de cuidado com o projeto que pretendia resgatar a valorização da magistratura. “Vamos buscar a unidade e a valorização da magistratura por um caminho novo para um novo tempo”.
Diretor da Associação dos Magistrados do Amazonas (Amazon), Flávio Pasquarelli, também apoia o movimento pela valorização da magistratura “de maneira ela possa ser ouvida pela sociedade e pelo poder público”. Ele adiantou que a diretoria eleita da Amazon também discorda dos rumos da atual gestão da AMB.