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Amagis - Associação dos Magistrados Mineiros

Artigo – As violências e crueldades do sistema prisional brasileiro – Luiz Guilherme

03 de fevereiro de 2010


 


* Juiz Luiz Guilherme Marques


O Consultor Jurídico (WWW.conjur.com.br) publicou uma nota em 31/01/2010

com o título “Carta de detentos ao STF leva comissão a cadeia em MG”, onde

informa o seguinte:


“Uma carta escrita por detentos ao presidente do Supremo Tribunal Federal,

ministro Gilmar Mendes, levou uma comissão formada por delegados e

autoridades do estado à cadeia de Monte Sião, em Minas Gerais, nesta

quarta-feira (27/1). O grupo foi apurar denúncias, feitas pelos presos, de

má alimentação, falta de banho de sol e de assistência médica, e abuso de

poder. O STF enviou um ofício ao juiz de Monte Sião, Milton Biagioni

Furquim, determinando que as denúncias fossem checadas.”



O problema vivido no presídio de Monte Sião – MG é o de praticamente todos

os presídios do país, fato que deve ser debitado a muitos magistrados

criminais que entendem que os infratores das leis penais devem ser

castigados e não pensam em propiciar-lhes meios de recuperação. (Há até os

que defendem a pena de morte.) Assim pensando,  permitem, de alguma forma,

que servidores do Sistema Penitenciário ajam como verdadeiros verdugos,

castigando os detentos com alimentação deficiente, falta de banho de sol

na quantidade necessária à manutenção da saúde, desinteresse pela procura

de recursos médicos nos casos necessários e abuso do poder praticado de

variadas formas, isso sem contar a exploração financeira de detentos,

coisas todas que, vez por outra vêm à tona em escândalos noticiados na

Mídia.



Culpa deve ser imputada também a muitos membros do Ministério Público

criminal, que fecham os olhos a essas realidades deprimentes do Sistema

Prisional brasileiro.



Muitos advogados também se omitem no dever de defenderem seus clientes

contra esses abusos com receio de desagradar magistrados, membros do

Parquet e autoridades policiais e penitenciárias.



O escândalo de Monte Sião é apenas um dentre milhares de ilegalidades

praticadas nas áreas penitenciária e penal no nosso país.



A solução seria uma revisão das regras processuais penais, com redução das

hipóteses de decretação de prisões provisórias, adequação do cumprimento

das penas privativas de liberdade às regras da Lei de Execução Penal,

reforma física dos presídios e, sobretudo, reciclagem na forma de atuação

de magistrados, membros do Ministério Público, delegados de polícia e

servidores em geral das áreas criminal e penitenciária.


A questão é mais de mentalidade do que de recursos materiais.



A propósito vale lembrar os 24 presídios mineiros que adotam o estilo APAC

como exemplos de que o ser humano é recuperável e de que uma cadeia

daquele sistema representa um custo muito menor que as tradicionais.



Se a iniciativa do Presidente do Supremo Tribunal Federal representa um

alerta para os operadores do Direito que justificam a violência e a

crueldade em nome da Justiça, na verdade é um pingo d’água no oceano de

violências e crueldades contra presidiários em quase todos os presídios

brasileiros.

 

* O juiz Luiz Guilherme Marques é juiz da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora

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